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Nós, os Manoki e os Myky, falamos a mesma língua com pequenas variações (os Manoki têm o “L” em seu idioma e os Myky não, por exemplo), assim como acontece com nossas histórias de origem, nossas roças e nossos rituais. Temos pequenas diferenças, variações que se complementam, e nossa convivência nos faz aprender mais uns com os outros, seja pela cooperação ou até mesmo pela competição – como em nossos jogos de bola de cabeça, o ãjãli ou ãjãi. Nossos antepassados viviam em um grande conjunto de aldeias autônomas muito próximas e se visitavam constantemente para casar, trocar, jogar, presentear e estar juntos. Com a chegada dos Kewa, que invadiram nossos territórios com muita violência, nossos povos se afastaram porque tiveram que fugir das ameaças. Os Manoki tiveram que buscar refúgio em uma missão católica de 1948 até 1968, onde aprenderam muito sobre o mundo dos “brancos”, ao mesmo tempo em que foram proibidos de falarem seu idioma e de praticarem seus rituais. Nunca esqueceram de seus parentes que fugiram para o norte e os buscaram até que os reencontraram em 1971.

Desde então, todos nós temos nos reaproximado aos poucos, sendo que temos diferentes forças que se complementam: os Manoki sabem muito sobre o mundo dos Kewa e auxiliaram os Myky em várias situações políticas, ao mesmo tempo que os Myky sabem muito sobre o mundo dos espíritos e de nossos antepassados e ajudam os Manoki com os rituais e festas indígenas.

Dessa forma, o aprendizado recente do cinema é mais um tipo de relação que nos aproxima e faz conexões entre nossas comunidades. Ainda que o coletivo Ijã Mytyli tenha se tornado realidade em 2019, muito antes dessa união em um único grupo de realizadores dos dois povos, separadamente nós já fazíamos nossos trabalhos. As gravações de eventos se iniciaram no povo Manoki em 2009, quando retomaram o ritual de iniciação dos meninos, um trabalho muito importante com nossos espíritos Yetá. Aqueles foram os primeiros registros realizados por algumas pessoas da comunidade Manoki, que atualmente compõe o Coletivo Ijã Mytyli de Cinema Manoki e Myky, como Marta Tipuici Manoki, professora e realizadora da aldeia 13 de maio.

No início, tivemos um trabalho de convencimento dos mais velhos em fazer registros audiovisuais. Encontramos muita resistência por parte deles, pois na nossa cultura, antigamente, nada material podia ficar dos que já morreram, todos os pertences dos finados eram enterrados com eles. Os velhos nos explicaram que isso era para evitar que os vivos ficassem tristes demais. Eles também alegavam que existem muitos acontecimentos e conhecimentos que não podem ser registrados e nem repassados para quem não faz parte dos nossos povos. Com muita conversa e explicação, tanto por parte das lideranças quanto dos mais novos, chegamos a acordos, que estabelecem até onde nossas câmeras podem chegar, o que podemos e não podemos gravar.

Em 2016, os Myky começaram a filmar a sua comunidade, com a retomada das festas de ãjãi, que reúnem os Manoki em uma grande competição. Por iniciativa de Typju Myky e outros jovens da comunidade, os registros começaram a ser realizados e logo conseguiram uma câmera própria para fazer as gravações. Tanto no aprendizado com a câmera pelos Manoki em 2009, como pelos Myky em 2016, um aliado sempre esteve próximo e tem nos auxiliado todos os anos nessa caminhada. Ele se chama André Lopes ou Tupxi, é antropólogo e documentarista, faz parte de nossas famílias e facilita nossos trabalhos.

Em 2019 iniciamos uma conversa entre jovens Myky e Manoki para buscarmos uma aproximação, a partir da ideia de Typju Myky de unificar os coletivos. Depois de muitas conversas entre os grupos interessados, essas duas equipes decidiram fazer uma reunião na aldeia Paredão e consolidar a ideia no dia 18 de fevereiro de 2020. Foi ali que criamos o coletivo. Pensando que nós estamos usando aquilo que é considerada uma ferramenta nova ou “moderna” para nós, estamos reinventando as formas de narrar a nossa história, entendendo que através da tecnologia também podemos fazer isso.

O Coletivo Ijã Mytyli de Cinema trabalha com registros de acordo com o interesse de nossas comunidades, pois entendemos que essa ferramenta é mais uma força para difundir o respeito e o conhecimento entre as diferentes culturas e registrar nossos saberes e valores para as futuras gerações.

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